Não é apenas concluir um trabalho: é reencontrar pesadelos, encarar demônios, viajar ao fundo daquilo que penso ser. Por isso está sendo tão difícil terminar aquilo que, quando comecei, me parecia ser algo completamente diferente. Eu acreditava na foto. Achava que estaria no topo do mundo, que seria o supra-sumo, que tudo se encaixaria. E olha, talvez se encaixará. Mas só quando estiver acabado. E vai acabar. Serei feliz, serei inteira. Tudo se resume a um pedaço de papel. A minha vida. Vai acabar. Aí sim, serei completa. Mas até isso acontecer, continuarei angustiada tentando entender por que um processo tão simples é tão dolorido para mim. Que seja. Muito do casulo já foi arrebentado. Falta isso aí. Tanta ansiedade para arrebentar um hímen. E no final não é nada. Idiota de quem pensou que fosse.
Escrever me é tão fácil. Pensar, muito natural e lógico. Para algumas pessoas esse processo todo causa um deslumbramento tão vexatório, a própria capacidade de rimar 'amor' com 'flor' enevoa o senso crítico, cega, faz deixar de atentar para detalhes decisivos. Nem sempre esses detalhes estão com luz de neon piscante. Um pequeno detalhe muda tudo. Nenhuma história vale algo se não estiver bem amarrada. Só David Lynch consegue fazer isso, e só porque ele usa imagens em movimento para contar histórias. Tem também o fato de que os seus azuis nos encantam a ponto de nos esquecermos do resto.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
É preciso morrer.
Uma morte anunciada em um portal acabou me arrastando de volta a um assunto. Que uma parte de mim precisa morrer para que eu consiga me soltar da pele antiga e me tornar aquilo que sou. Esse assunto, ironicamente, nunca morre. Mas se não matar a eterna culpa, não poderei continuar. A culpa de estar feliz e de precisar ser feliz, e do meu jeito. Só eu sei esse jeito. E ela (a culpa) deve morrer. Junto com ela, as coisas que não deram certo, os amores frustrados, as conquistas que não rolaram, os traumas que marcaram a alma de forma irremediável. Eles estão no topo do penhasco a esta hora e precisam ser empurrados. É aí que entra o funeral. Preciso fazer uma cerimônia do adeus. Um funeral latino, com muita lamentação, um luto de verdade. Que seja gritado para o mundo, que todos fiquem sabendo. Passando pelos vales como um trem escuro, como na primeira cena do Poderoso Chefão II. Não é à toa que tenho ouvido continuamente "Gulag Orkestar" do Beirut, um funeral mexicano perfeito, um choro doído corroendo o enlutado até sugar suas forças, seguido de algumas palavras soltas salpicando a dor, como se a temperasse. E assim vai até que o choro acabe por cansaço, quando o enlutado desmaia consumido. No dia seguinte, ou quando acordar, a morte é fato. Inegável, irreparável. E a culpa, os maus amores, tudo isso fica reservado para o 2 de novembro.
A menos que seja necessário matar de novo...
A menos que seja necessário matar de novo...
domingo, 19 de julho de 2009
Queria ter lhe dado um beijo no rosto e pedido desculpas:
- Estava delirando de febre, por isso te chamei de meu amor; fiquei triste porque você não veio dormir na sua cama nova. Não sabia que você estava chateado com isso. A gente é amigo desde sempre, fomos criados juntos, sempre dividimos o quarto; não sei porque disse aquilo. No fundo eu sinto algo por você, não sei bem o quê. Não deliro quando digo que sinto um carinho enorme por você, mas... e se fosse algo mais do que isso, estaria errado? Afinal eu sou uma mulher, você é um homem; que que tem de errado?
Dividimos o quarto sempre. Daí no dia em que a encomenda dele chegou, uma cama nova onde pudesse trabalhar confortavelmente enquanto convalescia, fui telefonar para ele avisando; ele parecia entusiasmado, mas não dormiu em casa naquela noite.
- Estava delirando de febre, por isso te chamei de meu amor; fiquei triste porque você não veio dormir na sua cama nova. Não sabia que você estava chateado com isso. A gente é amigo desde sempre, fomos criados juntos, sempre dividimos o quarto; não sei porque disse aquilo. No fundo eu sinto algo por você, não sei bem o quê. Não deliro quando digo que sinto um carinho enorme por você, mas... e se fosse algo mais do que isso, estaria errado? Afinal eu sou uma mulher, você é um homem; que que tem de errado?
Dividimos o quarto sempre. Daí no dia em que a encomenda dele chegou, uma cama nova onde pudesse trabalhar confortavelmente enquanto convalescia, fui telefonar para ele avisando; ele parecia entusiasmado, mas não dormiu em casa naquela noite.
Precisava desopilar, então não a culpe. Deixe-a em paz, porque ela não quer saber de coisas do passado, que não tem mais sentido em sua nova vida de crisálida. Pois que seja uma crisálida pelo resto da vida, pelos próximos 50 anos, não tem problema. As borboletas não duram mesmo.
Ela quer um doce novo, que valha cada caloria, um soco na cara que valha pelos dentes quebrados, um drama qualquer que a deixe viva de novo. Ela não suportou ser a família de olhos, a família de uma pessoa só, observando pela parede de vidro do restaurante a gorda família rica se fartando de comida, bebida, risadas, amor uns pelos outros. Deveria haver censura para restaurante. É uma ofensa às famílias de olhos do lado de fora. Merecemos compaixão. Não fomos feitos iguais, embora os demagogos digam que todos somos iguais. Morram vocês. Aliás, morra VOCÊ. Que a deixou dar uma mordida na coxa de frango mas arrancou-a de sua boca, deixando-a sedenta e faminta. E agora ela tem mais fome ainda. Ela quer tudo o que há no banquete. Suma para sempre, por favor, e deixe-a em paz.
Ela encontrará uma forma de alimentar-se, mesmo que não haja banquete, com risadas, comidas finas, bebidas raras. Não a sufoque, nem a impeça. Fique à vontade para odia-la, ignora-la, debochar da plebeia. Ela não liga mais para ti. Ela agora corre por fora.
Ela quer um doce novo, que valha cada caloria, um soco na cara que valha pelos dentes quebrados, um drama qualquer que a deixe viva de novo. Ela não suportou ser a família de olhos, a família de uma pessoa só, observando pela parede de vidro do restaurante a gorda família rica se fartando de comida, bebida, risadas, amor uns pelos outros. Deveria haver censura para restaurante. É uma ofensa às famílias de olhos do lado de fora. Merecemos compaixão. Não fomos feitos iguais, embora os demagogos digam que todos somos iguais. Morram vocês. Aliás, morra VOCÊ. Que a deixou dar uma mordida na coxa de frango mas arrancou-a de sua boca, deixando-a sedenta e faminta. E agora ela tem mais fome ainda. Ela quer tudo o que há no banquete. Suma para sempre, por favor, e deixe-a em paz.
Ela encontrará uma forma de alimentar-se, mesmo que não haja banquete, com risadas, comidas finas, bebidas raras. Não a sufoque, nem a impeça. Fique à vontade para odia-la, ignora-la, debochar da plebeia. Ela não liga mais para ti. Ela agora corre por fora.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Meu primeiro haikai.
E inverno paulista
Não têm costura
terça-feira, 8 de julho de 2008
Dedicava-se ao seguinte exercício: ficaria parada, em pé, observando uma sala de estar onde essa linda menininha de uns quatro anos de idade brincava. Muitos livros no chão, algumas canetas, lápis. Rabiscos tortos feitos com seriedade, como se aquele papel sulfite fosse um documento extremamente importante.
Observou mais de perto e viu que a menininha de cabelos compridos e castanhos fizera duas colunas. Pôde ler o que a mocinha escreveu. "Escreveu", aqui, é uma gentileza, pois a estreante das Letras havia aprendido apenas algumas coisinhas do alfabeto e fazia um bolo absurdo com elas. Não resistiu e lhe perguntou:
- O que você está escrevendo?
A doce menina respondeu com muita seriedade e boa vontade:
- Aqui - disse apontando para a coluna da esquerda - é uma música em inglês. Aqui - agora apontando para a coluna da direita - é a letra da música em português.
---------------------
Riu. Riu muito, de rolar no chão. Riu com a fantasia da menina. Ora, veja, a mocinha então é tradutora! Mas não era um riso debochado. Era algo mais para maravilhado. Crianças costumam fantasiar que são donas-de-casa, polícia, ladrão, cantor(a) famoso(a)... no máximo professor(a). Mas tradutora... ora veja...
- E onde você aprendeu inglês?
- No desenho da música com a bolinha. Eu canto junto.
- Você sabe cantar?
- Não... - deu um risinho e ficou vermelha.
- Sua boneca fala inglês também?
- Ela é americana - disse, fitando a bonequinha que parecia com ela.
- Qual é o nome dela?
- Trixie.
- Mas Trixie não é a...
- ...namorada do Speed Racer.
- É!
- Ela tem muito ciúmes.
- E você? É ciumenta?
- Tenho - a menina se confundiu um pouco.
- De quem?
- De todo mundo... da minha mãe.
- Por que?
- Porque ela fica mexendo com os bebês e eu não gosto de bebê, porque ela fica brincando com eles.
Vi que a menininha, como boa caçula, defendia seu posto.
-------------------------------
A menininha dançava um balé delicado na minha frente. Dizia que queria comer bombons gostosos (Kopenhagen, que eu sei), brincar com o aviãozinho de isopor e ver desenhos.
- Até quando vou ficar aqui, encantada com esses seus charminhos? - perguntei.
- Até perceberes que eu não sou tão indefesa quanto pensas. Pode ir, não tenhas medo. Eu vou ficar bem. Farei o melhor que puder. Não sei se tudo dará certo, ou errado. Não sejas tão maternal. Tenhas seus próprios filhos. Eu saberei cuidar de mim.
Foi quando vi que não se pode ser vítima ou carrasco para sempre.
Observou mais de perto e viu que a menininha de cabelos compridos e castanhos fizera duas colunas. Pôde ler o que a mocinha escreveu. "Escreveu", aqui, é uma gentileza, pois a estreante das Letras havia aprendido apenas algumas coisinhas do alfabeto e fazia um bolo absurdo com elas. Não resistiu e lhe perguntou:
- O que você está escrevendo?
A doce menina respondeu com muita seriedade e boa vontade:
- Aqui - disse apontando para a coluna da esquerda - é uma música em inglês. Aqui - agora apontando para a coluna da direita - é a letra da música em português.
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Riu. Riu muito, de rolar no chão. Riu com a fantasia da menina. Ora, veja, a mocinha então é tradutora! Mas não era um riso debochado. Era algo mais para maravilhado. Crianças costumam fantasiar que são donas-de-casa, polícia, ladrão, cantor(a) famoso(a)... no máximo professor(a). Mas tradutora... ora veja...
- E onde você aprendeu inglês?
- No desenho da música com a bolinha. Eu canto junto.
- Você sabe cantar?
- Não... - deu um risinho e ficou vermelha.
- Sua boneca fala inglês também?
- Ela é americana - disse, fitando a bonequinha que parecia com ela.
- Qual é o nome dela?
- Trixie.
- Mas Trixie não é a...
- ...namorada do Speed Racer.
- É!
- Ela tem muito ciúmes.
- E você? É ciumenta?
- Tenho - a menina se confundiu um pouco.
- De quem?
- De todo mundo... da minha mãe.
- Por que?
- Porque ela fica mexendo com os bebês e eu não gosto de bebê, porque ela fica brincando com eles.
Vi que a menininha, como boa caçula, defendia seu posto.
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A menininha dançava um balé delicado na minha frente. Dizia que queria comer bombons gostosos (Kopenhagen, que eu sei), brincar com o aviãozinho de isopor e ver desenhos.
- Até quando vou ficar aqui, encantada com esses seus charminhos? - perguntei.
- Até perceberes que eu não sou tão indefesa quanto pensas. Pode ir, não tenhas medo. Eu vou ficar bem. Farei o melhor que puder. Não sei se tudo dará certo, ou errado. Não sejas tão maternal. Tenhas seus próprios filhos. Eu saberei cuidar de mim.
Foi quando vi que não se pode ser vítima ou carrasco para sempre.
As aventuras de A. H. pelo mundo eram dignas do filme Peixe Grande. A experiência com outra mulher, quando voltou à cidade-dormitório onde havia morado na época da faculdade, quando ficara famosa pela sua “rotatividade sexual”. O prédio da república era conhecido como treme-treme, não apenas pela flexibilidade com que enfrentava os constantes terremotos, típicos da região. Ou quando voltou à casa onde havia morado com o ex-marido, para resolver entre outras burocracias a venda da sua parte na casa que tinham em comum. Foi um drama, porque ela precisou dormir no mesmo quarto onde ele dormia com sua atual mulher, igualmente redneck e sem estudo, e com quem já tinha um filho, que A. H. lhe havia negado.
Mas nada se comparava às suas histórias da época que passou em Israel. Antes, porém, ela foi visitar em um bairro pobre a família numerosa e católica de sua falecida cunhada. Assim como seu casamento com o oriental bronco, sua família judia também havia reprovado o casamento de seu irmão com uma garota humilde e tão diferente. Mas como valeram aquelas poucas horas... convivendo com a mãe amorosa e as muitas irmãs, tão diferentes daquela morena de personalidade forte combinada com um abnegado amor ao próximo. Foi quando Annie se lembrou de uma frase que está em uma parte da Bíblia que ela pouco visitava: “amar ao próximo como a ti mesmo”. Era óbvio! Sua cunhada tinha muito amor próprio, sim, mas seu amor pela família era imenso, a ponto de unir todas as suas irmãs para um objetivo em comum: manter aquela família unida, todas trabalhando em conjunto em todas as tarefas, seja manter os pratos limpos ou cuidar para que sua mãe não tivesse tanto trabalho. A união daquela família fez Annie sentir vergonha de sua própria. Ela mesma havia rompido com o irmão desde que desfizeram a sociedade que tinham em uma rede de laboratórios fotográficos. Tantas discussões por negócios, tantas disputas em torno de controle financeiro e poder terminaram por separar seus irmãos e tios. Tanta coisa pela qual, agora ponderava, não valia a pena lutar de forma tão irascível e mesquinha.
Em Israel, Annie enfrentou um treinamento militar que a tornaria uma pessoa mais preparada para o mundo (será?), mais madura (provavelmente) e mais cética (sem dúvida). Acompanhada de um amigo israelense e uma bióloga, Annie se sentiu diminuída, pois não fez o serviço militar obrigatório. Aos 18 anos, morava no Brooklyn. Não por inveja, não por necessidade de competição, mas porque a destreza com que seu amigo Avital domava uma cobra venenosa e retirava-lhe o veneno lhe salvou a vida. Annie podia não ter a mesma sorte.
Mas nada se comparava às suas histórias da época que passou em Israel. Antes, porém, ela foi visitar em um bairro pobre a família numerosa e católica de sua falecida cunhada. Assim como seu casamento com o oriental bronco, sua família judia também havia reprovado o casamento de seu irmão com uma garota humilde e tão diferente. Mas como valeram aquelas poucas horas... convivendo com a mãe amorosa e as muitas irmãs, tão diferentes daquela morena de personalidade forte combinada com um abnegado amor ao próximo. Foi quando Annie se lembrou de uma frase que está em uma parte da Bíblia que ela pouco visitava: “amar ao próximo como a ti mesmo”. Era óbvio! Sua cunhada tinha muito amor próprio, sim, mas seu amor pela família era imenso, a ponto de unir todas as suas irmãs para um objetivo em comum: manter aquela família unida, todas trabalhando em conjunto em todas as tarefas, seja manter os pratos limpos ou cuidar para que sua mãe não tivesse tanto trabalho. A união daquela família fez Annie sentir vergonha de sua própria. Ela mesma havia rompido com o irmão desde que desfizeram a sociedade que tinham em uma rede de laboratórios fotográficos. Tantas discussões por negócios, tantas disputas em torno de controle financeiro e poder terminaram por separar seus irmãos e tios. Tanta coisa pela qual, agora ponderava, não valia a pena lutar de forma tão irascível e mesquinha.
Em Israel, Annie enfrentou um treinamento militar que a tornaria uma pessoa mais preparada para o mundo (será?), mais madura (provavelmente) e mais cética (sem dúvida). Acompanhada de um amigo israelense e uma bióloga, Annie se sentiu diminuída, pois não fez o serviço militar obrigatório. Aos 18 anos, morava no Brooklyn. Não por inveja, não por necessidade de competição, mas porque a destreza com que seu amigo Avital domava uma cobra venenosa e retirava-lhe o veneno lhe salvou a vida. Annie podia não ter a mesma sorte.
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